24 novembro 2011

Há cada vez mais anúncios a oferecer sexo desprotegido

"Alta, super elegante e sensual. O [oral]. natural." Multiplicaram-se os anúncios de serviços sexuais e cada vez mais há referências explícitas a sexo desprotegido. A ilação é de quem faz parte do Porto G, projecto da Agência Piaget para o Desenvolvimento.

A equipa começou por telefonar a anunciantes, a oferecer os seus préstimos. Desde 3 de Fevereiro de 2009, entrou em 134 apartamentos, casas de massagem, bares de alterne e outros espaços e contactou com mais de 500 profissionais do sexo, quase todos do sexo feminino. "Possuem crenças e conhecimentos limitados acerca do VIH e de outras doenças sexualmente transmissíveis", conclui-se no relatório final, a apresentar amanhã, no seminário Trabalho Sexual e Direitos Humanos, que o Porto G organiza na Fundação Engenheiro António de Almeida, no Porto.

Em conversas com prostitutas que tendem a demorar mais de uma hora, a equipa ouve falar em comportamentos de risco "tão enraizados que requerem tempo para serem desafiados e modificados". Colecciona exemplos, o coito desprotegido com clientes conhecidos, o uso de dois preservativos em simultâneo, o recurso a óleos em vez de lubrificantes, o sexo oral desprotegido, a interrupções voluntárias da gravidez sem vigilância médica...

"O trabalho sexual atravessa uma fase sem precedentes em Portugal, reflexo de uma crise que se faz sentir em quase todos os sectores da economia", escreve-se, no documento a que o PÚBLICO teve acesso. Há "cada vez mais" anúncios, explica a coordenadora, Aline Santos. Mediante tanta concorrência, descem os preços dos serviços (há mulheres a cobrar 20 euros e transexuais a cobrar 50) e sobe a "oferta de prestação de sexo desprotegido".

Numa semana de Junho deste ano, num único jornal nacional, a equipa encontrou 1706 anúncios de trabalho sexual. Ora, 271 apregoavam práticas sexuais desprotegidas.

A equipa não se limita a fazer educação para a saúde. Também entrega "ferramentas" que permitam realizar o trabalho sexual "com menos risco". Nas visitas domiciliárias, distribuiu 51.712 preservativos masculinos, 9999 femininos, 14.204 extrafortes, 4295 de sabor, 31.909 lubrificantes e 488 bandas de látex. Nos acompanhamentos, outros 7355 preservativos masculinos, 1710 femininos, 1805 extrafortes, 597 de sabor e 4360 lubrificantes.

Há um interesse crescente pelo preservativo feminino. "A primeira reacção foi de estranheza", diz Aline Santos. "Fomos dizendo para cada uma experimentar, num ambiente mais confortável, com o companheiro." Agora, muitas usam-no, sobretudo, para atender clientes com problemas de erecção. Outras ainda a desconfiarem da sua eficácia, referem desconforto, temem "deseducar" os clientes.

A maior resistência ao uso do preservativo vem dos clientes. "É fundamental informá-los e co-responsabilizá-los", defende a mesma técnica. Desde Maio de 2009, todos os meses, o Porto G publica um anúncio, na secção de Relax do tal jornal, a oferecer "apoio e confidencialidade a clientes".

O ambiente, amanhã, será de alguma incerteza. O financiamento da Coordenação Nacional para o VIH-Sida terminou em Outubro. A candidatura para um Porto G reformulado foi apresentada em Maio, mas aguarda ainda resposta. A Agência Piaget para o Desenvolvimento está a mantê-lo, enquanto espera luz verde para continuar no Porto e alargar a intervenção a Lisboa. "O que se gasta em prevenção é muito menos do que o que gasta em tratamento. Uma pessoa com sida custa dez mil euros por ano ao Estado, uma equipa destas custa 57 mil euros por ano", remata Aline Santos.
 

21 novembro 2011

Dia Mundial de Luta Contra a Sida 2011

O tema para o Dia Mundial da Sida deste ano é "Getting to Zero". 
Zero novas infecções, 
Zero pessoas discriminadas e 
Zero mortes relacionadas com a infecção VIH. 

Veja as imagens da campanha no ligação:

15 novembro 2011

Portugal com menos casos de toxicodependentes com VIH

Portugal é um dos países da Europa com mais novos casos de VIH por milhão de habitantes entre os consumidores de droga injectável, mas é também um dos que regista uma diminuição do número total de infectados.

De acordo com o relatório de 2011 do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), divulgado esta terça-feira em Lisboa, apesar de Portugal se encontrar em quarto lugar nos cinco países com maior número de novos casos de VIH entre os consumidores de droga injectável, é um dos três que regista um decréscimo de infecções provocadas por novos casos.

Segundo os dados do último relatório do OEDT, que neste campo reportam a 2009, os números de novos casos de VIH entre os consumidores de droga injectável colocam no topo da tabela a Estónia (63,4/milhão de habitantes), seguida da Lituânia (34,9), Letónia (32,7), Portugal (13,4) e Bulgária (9,7).

Dos cinco países com mais novos casos (incidência) no seio dos consumidores de droga injectável, entre 2004 e 2009, Portugal é um dos três que regista decréscimo entre esta população, com a Estónia a apresentar um aumento de 28,8 (em 2008) para 63,4 casos em 2009 e a Lituânia de 12,5 em 2008 para 34,9 em 2009.

Portugal surge também em destaque entre os cinco países com uma descida do número total (prevalência) de infectados com VIH entre os consumidores de droga injectável, atrás da Áustria, França, Itália e Polónia, depois de vários anos no topo desta lista negra, revela o OEDT.

A agência europeia de informação sobre droga, sediada em Lisboa, sublinha que "na última década, a União Europeia obteve grandes progressos no combate à infecção do VIH entre os consumidores de droga injectável, incluindo uma maior responsabilidade de medidas de prevenção, tratamento e redução de danos", como é o caso de Portugal.

Os últimos dados europeus mostram que o índice médio de novos casos de infecção pelo VIH notificados continua a diminuir na Europa, tendo atingido um novo valor mínimo de 2,85 por milhão de habitantes (cerca de 1.300 casos), diz o OEDT, sublinhando que "a situação na UE é positiva, tanto em relação ao contexto mundial, como ao contexto europeu mais amplo".

Contudo, a agência europeia considera que a epidemia de VIH entre os consumidores de droga injectável "continua a constituir um grave problema de saúde pública para muitos países vizinhos da UE" e alerta que "a sobrecarga que a crise económica está a impor aos orçamentos dos serviços de tratamento aos toxicodependentes também poderá pôr em risco a capacidade dos países para fornecerem respostas adequadas às pessoas que correm maior risco de infecção".

No que respeita a outras doenças infecto-contagiosas, a hepatite viral, e em especial a hepatite C, continua com uma elevada prevalência entre os consumidores de droga injectável de toda a Europa, com variações grandes entre os países, o mesmo sucedendo com a hepatite B.

A tuberculose mantém também uma prevalência alta, tendo sido identificados em 2008 um total de 82.605 casos em 26 estados-membros da UE e na Noruega, com taxas superiores a 20 casos por 100.000 habitantes na Bulgária (41,2), na Estónia (33,1) na Letónia (47,1), na Lituânia (66,8), em Portugal (28,7) e na Roménia (114,1).

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=2124056&page=-1

02 outubro 2011

VIH: Ministério quer descida de preços nos medicamentos

Apesar de haver cada vez mais pessoas em tratamento em Portugal, as ordens são para cortar na despesa. O secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa, garantiu hoje que existem soluções de poupança que garantem que os doentes "vão continuar a ser tratados de acordo com a melhor prática orçamental".

O ministério quer "aprimorar a capacidade negocial com a indústria farmacêutica", disse à Lusa o governante, à margem da conferência sobre "As prioridades do diagnóstico e dos cuidados de saúde precoces para a infeção pelo VIH no contexto de crise em Portugal".

Durante a sua intervenção em Lisboa, Fernando Leal da Costa afirmou, em tom irónico, que "a indústria farmacêutica sabe que pode pedir o que quiser... porque nós não pagamos".

A opção de negociar preços mais baixos dos medicamentos com a indústria farmacêutica há muito que vem sendo defendida pelo coordenador nacional para a infeção do VIH/sida, Henrique Barros.

À Lusa, Henrique de Barros lembrou que "os tratamentos são excessivamente caros" e "muitos medicamentos estão há demasiados anos no mercado, sendo usados por demasiadas pessoas para se manterem esses preços".

Portugal é o terceiro país da Europa em prevalência e novos casos de infecção, atrás da Estónia e Letónia, segundo um estudo europeu do ano passado, registando ainda um aumento do número de pessoas em tratamento muito acima da média europeia.

Situação que leva Henrique de Barros a defender que "há espaço para encontrar equilíbrios", dando "margem à própria indústria para, dentro da legitimidade do seu negócio, fazer um preço compatível com as possibilidades do país".

Para que a ideia se torne realidade, "é preciso um trabalho sério e equilibrado de negociação para se conseguir viver com preços que sejam comportáveis para a nossa capacidade", sublinhou o coordenador nacional.

O responsável lembrou que "mais do que duplicou o número de pessoas em tratamento" e que os tratamentos eficazes têm estar disponíveis para quem precisa.

À Lusa, o secretário de Estado referiu ainda o trabalho que está a ser feito para "combater o desperdício" e "melhorar a eficiência do sistema".

"Brevemente vamos ter linhas de orientação terapêutica na área do VIH/sida, estamos a fazer um levantamento das capacidades hospitalares instaladas, vamos desenhar uma carta hospitalar, vamos permitir uma nova relação entre os cuidados primários e os cuidados hospitalares", enumerou.

Sobre o futuro da coordenação nacional para a infeção do VIH, o governante disse apenas que "eventualmente mudará de nome mas continuará a haver um Programa Nacional de Luta Contra a Sida, continuará a haver uma coordenação e provavelmente até um reforço de direcção dos responsáveis do programa".

"O que nós vamos combater é o desperdício e a nossa primeira intenção é melhorar a eficiência do sistema. Tudo o que tiver de ser feito para bem dos doentes continuará a ser feito", garantiu.

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2029770

20 setembro 2011

Investigadores da Catalunha anunciam nova vacina para a SIDA

Investigadores da Catalunha, Espanha, anunciaram, esta terça-feira, uma nova vacina com grande capacidade de estimular a resposta imunitária e capaz de funcionar como vacina preventiva contra a SIDA, devendo ser testada em pessoas dentro de dois anos.

A vacina, à base de uma proteína feita a partir de 46 moléculas virais, resultou de uma investigação dirigida pelos médicos Bonaventura Clotet e Josep María Gatell, ambos ligados ao Projecto de Investigação da Vacina contra o VIH da Catalunha.

O anúncio dos resultados da investigação coincidiu com a realização do III Simpósio sobre as Novas Estratégias para Desenvolver Vacinas contra o VIH, evento que tem a presença de Françoise Barre-Sinousi, prémio Nobel de Medicina.

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=2006324

15 setembro 2011

Gatos fluorescentes podem dar pistas para o combate à sida

O FIV (sigla em inglês para Vírus de Imunodeficiência Felina) está para os gatos como o HIV está para os humanos. É um vírus que mina o sistema imunitário dos felinos e que os torna susceptíveis a fungos, bactérias ou outros vírus. Os humanos e os macacos – que sofrem de uma doença semelhante – não contraem este vírus dos gatos (assim como os gatos não contraem o HIV, por exemplo) provavelmente devido à TRIMCyp, uma proteína que se pensa que reconhece a capa do FIV e ordena o sistema imunitário matar o vírus.

Os cientistas decidiram inserir nos gatos este gene para tentar obter o mesmo tipo de protecção no felino. Mas em conjunto com este gene, inseriram outro pedaço de ADN que codifica uma proteína que emite fluorescência.

“Fizemo-lo para encontrar mais facilmente as células quando as observamos ao microscópio ou quando projectamos uma luz no animal”, disse citado pela BBC News Eric Poeschla, da Clínica Mayo, em Rochester, nos Estados Unidos. O cientista é um dos responsáveis pelo estudo e um dos autores do artigo da Nature Methods, que juntou investigadores norte-americanos e japoneses.

A utilização da GFP (a sigla inglesa para a Proteína Fluorescente Verde) é comum na ciência, mas nunca tinha sido aplicada a um carnívoro. Baseia-se na inserção do gene da GFP numa célula fecundada de um animal – neste caso de um gato – juntamente com o gene da proteína que se quer estudar.

Se tudo correr bem, quando uma célula do organismo geneticamente modificado produz a nova proteína, também produz a GFP. E aos cientistas, basta submeter as células a um certo tipo de luz para ver a fluorescência e confirmar que se está a dar a produção da proteína que se quer estudar.

No caso dos gatos, a inserção dos genes nas células fecundas foi feita com um vírus e a técnica foi um sucesso. Quase toda a descendência dos gatos onde foram inseridos os genes produzia a proteína contra o FIV, e em todo corpo, como se pode ver na fotografia. Os cientistas tentaram depois infectar com o FIV células sanguíneas destes gatos, mas não tiveram sucesso.

“Isto dá uma capacidade sem precedentes de estudar os efeitos da protecção de um gene num animal vulnerável [devido a uma doença parecida com a sida]”, disse Poeschla à Reuters, sublinhando que só os felinos e os macacos é que sofrem de uma doença semelhante ao dos humanos.

Ao Guardian os professores Helen Saug e Bruce Whitelaw deixaram um alerta. “Isto tem um valor potencial, mas o uso de gatos geneticamente modificados como modelos para doenças humanas é muito provavelmente limitado e só se justifica se outros modelos não forem adequados”, disseram os investigadores do Instituto Roslin da Universidade de Edimburgo, onde em 1996 a ovelha Dolly foi clonada.

Mas uma descoberta no combate ao FIV também poderá trazer utilidade terapêutica aos felinos que sofrem com esta doença. A equipa de Poeschla vai agora testar se os gatos geneticamente alterados passaram a ser imunes ao FIV ou se são mais resistentes a desenvolverem a versão felina da sida.

http://www.publico.pt/Ci%C3%AAncias/gatos-fluorescentes-podem-dar-pistas-para-o-combate-a-sida_1511620

19 agosto 2011

Novos anticorpos contra o VIH podem ajudar a produzir vacina

O mundo está cheio de estirpes do VIH, e essa é uma das grandes dificuldades no combate desta epidemia. Para a produção de uma vacina é necessário ter em conta esta diversidade e criar em cada pessoa imunidade contra as estirpes dos quatro cantos do globo. Por isso, a descoberta de 17 novos anticorpos monoclonais contra o VIH feita por uma equipa norte-americana e publicada nesta quarta-feira na edição on-line da revista Nature, é um motivo de esperança.

Estes anticorpos são moléculas que se ligam ao vírus e o assinalam como um alvo, para as células do sistema imunitário o matarem. Existem actualmente terapias de anticorpos monoclonais para várias doenças autoimunes e alguns cancros.

Entre as pessoas infectadas com o VIH há uma percentagem de dez a 30 por cento cujo sistema imunitário desenvolve anticorpos especialmente competentes em detectar o vírus. Numa pequena percentagem desta população, a quantidade de vírus mantém-se muito baixa, e estas pessoas não chegam a desenvolver sida. A doença só é declarada quando um grupo específico de células imunitárias se torna tão reduzido, por serem atacadas pelo vírus VIH, que os doentes ficam susceptíveis a qualquer tipo de doença. Foi assim que morreram 25 milhões de pessoas desde 1981.

A equipa do Instituto de Tecnologia do Massachusetts que publicou agora a sua descoberta na Nature encontrou estes anticorpos depois de analisar 1800 indivíduos com resistência ao vírus. Muitos dos anticorpos revelaram-se extremamente potentes. Ou seja, em concentrações muito pequenas inibem a actividade do vírus.

“Estes anticorpos são dez vezes mais eficientes do que outros já isolados”, disse por e-mail ao PÚBLICO Katie Doores, uma das investigadoras do estudo. “O que significa que não é necessário provocar tanta produção de anticorpos através da vacinação.”

Isto é importante. “A quantidade de anticorpos que se produz varia com cada pessoa. Se em pequenas concentrações o anticorpo funcionar, então mais probabilidades há da vacina funcionar”, disse ao PÚBLICO Eugénio Teófilo, médico português que trabalha com doentes infectados pelo VIH no Hospital dos Capuchos.

Além disso, muitos dos novos anticorpos identificam várias estirpes do vírus, o que assegura que uma vacina hipotética proteja contra 62 a 89 por cento das estirpes, avança o artigo.

O passo seguinte, segundo Doores, é tentar produzir uma vacina, ou seja, criar artificialmente as moléculas do vírus que estes 17 anticorpos identificam. Num indivíduo saudável, estas moléculas produziriam uma resposta imunitária — os anticorpos que se colam ao VIH.

Mas Eugénio Teófilo alerta que os anticorpos agora descobertos não andam pelas regiões do corpo que têm o primeiro contacto com o vírus, como as mucosas, onde se poderia evitar o começo da infecção. No entanto, o médico defende que a vacina pode vir a ser terapêutica e fazer com que as pessoas infectadas controlem o vírus sem medicamentos.

http://www.publico.pt/Ci%C3%AAncias/novos-anticorpos-contra-o-vih-podem-ajudar-a-produzir-vacina_1508040